sábado, 11 de fevereiro de 2012


            O facebook possui atualmente cerca de 25 milhões de usuários no Brasil, o que confere ao nosso país a quarta colocação mundial no ranking de usuários da rede social. Eu faço parte dessa massa que diariamente passa minutos, horas de seu dia comentando, compartilhando e curtindo conteúdos. Foi em um desses momentos que vi a seguinte frase publicada lá: “Você se foi e eu afundei numa melancolia de dar gosto”. 
            Fiquei imaginando quantas projeções não cumpridas deveriam estar reunidas naquela mulher.  A dor dela não estava no que havia sido vivido, mas sim em tudo o que foi imaginado, e na imaginação permaneceu. Buquês de flores que jamais chegariam, declarações de amor que não seriam mais ouvidas, o “pra sempre” que agora não passava de cinzas.
           O triste é que esse sentimento de ausência por algo que talvez nunca aconteça não é exclusividade da autora daquela frase. Tantas, quantas, muitas pessoas vivem a se lamuriar por amores que não deram mais certo. É tão estranha a maneira como as pessoas padecem por amor. Ideal seria que, ao invés de ficarmos nos lamentando pelos cantos (incluem-se aqui redes sociais) fôssemos capazes de perceber quão bons foram aqueles momentos, enquanto duraram. Gratidão, ao invés de nostalgia. Sofrer pra quê?
          É como se tudo de prazeroso que houve até então fosse simplesmente apagado da memória, dando lugar a uma série de torturantes projeções frustradas.  O que te faz chorar não foram os finais de semana que passaram na praia, e sim, todas as viagens que haviam planejado, e que jamais acontecerão. Ninguém sofre por um dia ter recebido um beijo apaixonado. Sofre porque agora sabe que os filhos que até nome escolhido já tinham, jamais nascerão.
            A vida é assim. Nós somos assim. O que nos faz sofrer não é o que houve de ruim, mas o que poderia ter havido de bom. O problema não é a chuva. É o que poderia ter sido feito, caso houvesse sol. A comida fria não é ruim. Ruim é não podermos saborear o sabor dos alimentos quentes. O trabalho não é ruim. Ele apenas furta os momentos que poderíamos ter para viajar, ir ao cinema, jogar conversa fora. Não é o fato de o bebê chorar demais durante a noite que provoca as olheiras na mãe, e sim as preciosas horas de sono que a insônia do filho lhe confiscou. O que nos faz sofrer não é a derrota, e sim o fato de não podermos soltar o grito de vitória que permanecerá sufocado em nós.
           E, para amenizar a dor do que não existiu, só há uma maneira: menos expectativa e mais ação. Vida doída é a vida que não se vive!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

[...] No começo, parece tudo muito simples: basta misturar os ingredientes até que a massa se torne homogênea. Após, leve ao forno até que fique com a aparência dourada. Está pronto para saborear. Fácil, para uma receita de bolo. O problema começa quando as pessoas confundem a receita da vovó com a própria vida. Não há como saber se os elementos que misturamos resultará em algo saboroso ou não. E jamais saberemos se não tentarmos. Se houver liga entre os ingredientes, nos resta saborear o cardápio. Caso contrário, o resto é partir pra outras combinações, outros ingredientes, maneirar no tempero, colocar mais pimenta... Ao final, caso não consigamos a combinação perfeita, ao menos teremos um paladar refinado, que certamente não se satisfará com a primeira amostra grátis que aparecer...


A VIDA É O TRAJETO 

        Dia desses, conversava com uma amiga. Era daquelas conversas descompromissadas, cujo único objetivo era proporcionar boas risadas aos envolvidos.  Falávamos sobre nossas pretensões, quando a ouvi dizer que seu único objetivo era “ser feliz”. Mas afinal, o que é essa tal felicidade? Aqueles que compartilham do mesmo objetivo de vida de minha amiga fazem isso para se sentirem bem consigo mesmos, ou apenas para não serem vistos como fracassados por outras pessoas? Tenho cá minhas dúvidas.
        Há uma frase muito difundida, mas cabível na discussão. É atribuída a Mahatma Gandhi e fala que “não há caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho”. Particularmente, compartilho da ideia de Gandhi. Não creio que seja possível viver anos a fio em busca de algo simplesmente ignorando-se todo o percurso para chegar lá. Ainda que sejam tomados todos os cuidados cabíveis no caminho, corre-se o risco de se frustrar com o resultado. Essa frustração seria potencialmente reduzida se o caminho tivesse sido de fato apreciado. Ou além: talvez o caminho seja tão encantador, a ponto de já nem nos lembrarmos do objetivo inicial.
        Desperdiçamos anos preciosos esperando o próximo acontecimento para sermos de fato, felizes. Serei feliz quando ingressar na faculdade; serei feliz ao sair da faculdade; Alcançarei felicidade ao casar, ao ter filhos, ao emagrecer, ao viajar, ao voltar, ao trabalhar, ao descansar, ao morrer...
        A verdade é que, enquanto permanecíamos sentados no banco da estação da vida esperando o trem que nos levaria à plenitude, não nos damos conta de que a verdadeira felicidade estava nos trilhos que conduzem ao destino. E é assim que a vida ocorre para muitos: perde-se tanto tempo imaginando o final da jornada, que não se percebe que se perdeu a própria viagem.
        Minha amiga sabia que queria ser feliz. E era só o que sabia. O real significado da palavra felicidade era desconhecido por ela. É provável que ela passe pela felicidade – ou ainda, que a felicidade passe por ela – e não se reconheçam.  Ora, se não se sabe ao certo o lugar para onde se está indo, o mais recomendável é que se busque no caminho motivos que façam com que a aventura da vida valha a pena. Caso não se consiga alcançar o topo da colina, ao menos nos teremos deliciado com as flores e aromas do trajeto.


ENQUANTO O AMOR SEJA UM BEM...

        Diariamente, pessoas apaixonam-se, dão-se em noivado, alguns até casam, prometendo “ser fiéis na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias, até que a morte os separe”. Ocorre que depois de certo tempo, o encanto do amor se esvai, as juras de eternidade escasseiam-se, os beijos já não são mais acompanhados de toques sutis.
        Lentamente, apaga-se o passado romântico. As noites em que sonharam acordados, antes que a lua, testemunha de histórias de amor, saísse de cena, são esquecidas. Esquecem até mesmo as músicas que embalaram o início da paixão. O que resta é um relacionamento desgastado, uma convivência por obrigação, em que, muitas vezes, o diálogo já se tornou lembrança.

        Separação. Parece ser o racional a ser feito, quando duas pessoas já não conseguem encontrar-se em uma relação. E quanto aos votos matrimoniais? O combinado era que vivessem juntos até que a morte os viesse ceifar. Mas, o que seria essa morte? Segundo Michaelis, seria o “Ato ou fato de morrer; fim da vida, destruição, pesar profundo; Fim.”
        A morte vai, então, a outros lugares, além do último suspiro. Morre quem não se ama, quem se sujeita à escravidão da rotina. Morre quem se anula por uma relação sem presente nem futuro, que há muito já não satisfaz nenhuma das partes. Morre quem não arrisca, quem não inova, quem tem medo de apaixonar-se novamente, ainda que por si próprio.  Morre quem permanece sem mudar, ainda que a vida não lhe esteja saindo como o planejado. Morre quem não abre mão das desventuradas certezas para viver as deliciosas expectativas. 
         Há que saber reconhecer relacionamentos mortos. Muitos não conseguem sentir que o amor não resistiu ao convívio. E talvez não reconheçam tal por nunca terem cogitado o fenecimento do amor. Uma história que começou com flores de alvíssaras, pode acabar com flores fúnebres. É preciso sensibilidade dos envolvidos para reconhecerem a hora da necessária e recíproca emancipação.
        Amores não precisam de longos tempos, para serem bons. Necessitam,  apenas, de respeito e bom senso dos amantes. Se o amor morreu, que sejam preservados na memória os bons momentos que existiram.