Sobre mães e casacos
Minha mãe
sempre foi daquelas que ao me ver sair, sempre falava para eu levar um casaco. Não podia me
ver com os pés na porta, que não resistia a tentação: “ - Filha, tá levando um
casaquinho? Mais tarde esfria”...
Quando eu
era criança, nunca entendi isso muito bem. Mas, criança que era, obedecia sem
pestanejar. Quando eu era criança, aprendia-se que deveríamos sempre obedecer
aos adultos, sem grandes questionamentos.
O fato
é que o tempo foi passando, e minha mãe não perdia essa estranha mania. Onde
quer que eu fosse, qual fosse o horário, a frase se repetia. Me tornei
adolescente, e o casaco continuou me perseguindo. Quando eu era adolescente,
costumávamos resmungar um pouco quando os mais velhos falavam com a gente no
imperativo. Mesmo assim, só pra garantir, acabávamos obedecendo. E no meu caso,
não entendendo o motivo da tal recomendação.
Minha adolescência já se foi há certo tempo. Mulher feita
que sou, ainda hoje, minha mãe insiste no tal do casaco toda vez que vou sair
de casa. Dia desses, ao perceber que eu estava prestes a sair de casa para mais
um dia de trabalho, lá veio ela com a velha máxima de sempre. Era início de tarde,
fazia calor. Daquela vez, eu dei de ombros, ignorei o casaco. Talvez aquela
tenha sido a primeira vez em que eu parei pra refletir o verdadeiro motivo pelo
qual minha mãe repetia aquele conselho incansavelmente por todos esses anos.
Mães são seres indecifráveis,
misteriosos, mágicos. Talvez por isso eu jamais vá entender porque minha mãe insista
na teoria do casaco por todos esses anos, o que não me impede de imaginar os
motivos disso tudo. De tanto pensar, de tanto
imaginar, passei a desconfiar de bastante coisa.
Desconfio que a maior preocupação da
minha mãe não seja exatamente o frio, mas algo que ultrapassa as barreiras
meteorológicas. Desconfio também que os filhos sejam como as palavras que
escrevo aqui. A partir do momento que se materializam, já não pertencem mais a
mim. Ganham vida própria, e eu, que as gerei, me torno incapaz de delinear e
controlar os caminhos que percorrerão.
Acho que
minha mãe queria mais do que simplesmente me proteger do frio. Ela queria me
proteger do mundo. Como se as linhas do tecido fossem extensões dos braços
dela. Em caso de emergência, e na falta do colo dela, eu teria onde me
refugiar.
Naquela noite houve mais do que frio. Naquela noite houve
solidão... e só eu sei a falta que o casaco me fez...




