domingo, 3 de junho de 2012


Sobre mães e casacos

            Minha mãe sempre foi daquelas que ao me ver sair, sempre  falava para eu levar um casaco. Não podia me ver com os pés na porta, que não resistia a tentação: “ - Filha, tá levando um casaquinho? Mais tarde esfria”...
            Quando eu era criança, nunca entendi isso muito bem. Mas, criança que era, obedecia sem pestanejar. Quando eu era criança, aprendia-se que deveríamos sempre obedecer aos adultos, sem grandes questionamentos.
              O fato é que o tempo foi passando, e minha mãe não perdia essa estranha mania. Onde quer que eu fosse, qual fosse o horário, a frase se repetia. Me tornei adolescente, e o casaco continuou me perseguindo. Quando eu era adolescente, costumávamos resmungar um pouco quando os mais velhos falavam com a gente no imperativo. Mesmo assim, só pra garantir, acabávamos obedecendo. E no meu caso, não entendendo o motivo da tal recomendação.
Minha adolescência já se foi há certo tempo. Mulher feita que sou, ainda hoje, minha mãe insiste no tal do casaco toda vez que vou sair de casa. Dia desses, ao perceber que eu estava prestes a sair de casa para mais um dia de trabalho, lá veio ela com a velha máxima de sempre. Era início de tarde, fazia calor. Daquela vez, eu dei de ombros, ignorei o casaco. Talvez aquela tenha sido a primeira vez em que eu parei pra refletir o verdadeiro motivo pelo qual minha mãe repetia aquele conselho incansavelmente por todos esses anos.
            Mães são seres indecifráveis, misteriosos, mágicos. Talvez por isso eu jamais vá entender porque minha mãe insista na teoria do casaco por todos esses anos, o que não me impede de imaginar os motivos disso tudo. De tanto pensar, de tanto  imaginar, passei a desconfiar de bastante coisa.
            Desconfio que a maior preocupação da minha mãe não seja exatamente o frio, mas algo que ultrapassa as barreiras meteorológicas. Desconfio também que os filhos sejam como as palavras que escrevo aqui. A partir do momento que se materializam, já não pertencem mais a mim. Ganham vida própria, e eu, que as gerei, me torno incapaz de delinear e controlar os caminhos que percorrerão.
            Acho que minha mãe queria mais do que simplesmente me proteger do frio. Ela queria me proteger do mundo. Como se as linhas do tecido fossem extensões dos braços dela. Em caso de emergência, e na falta do colo dela, eu teria onde me refugiar.
Naquela noite houve mais do que frio. Naquela noite houve solidão... e só eu sei a falta que o casaco me fez...

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